A desilusão que você me trouxe
Cobriu com um manto de tristeza tudo o que eu queria celebrar
E, de tanta brutalidade, fui embrutecendo
A sutileza tornou-se impaciência
A suavidade tornou-se agressão
O sorriso tornou-se angústia
O respeito tornou-se deboche
O sussurro tornou-se grito
A paz tornou-se guerra
E, de tanto amargor, fui amargando
Respostas ríspidas para perguntas bobas
Foram se esgueirando pela minha fala
Até torná-la irreconhecível
E, parasitando a rotina,
Calaram toda e qualquer vontade.
E, de tanta distância, fui me distanciando
Aprendendo a conviver com a solidão
Na ausência de afeto, o reinado absoluto do olhar perdido
Dos braços vazios
Dos lábios secos
Da cama não compartilhada
E, de tanto desamor, fui desamando
E meu coração, que entreguei a ti desnudo,
Foi tantas vezes estilhaçado
Que precisei juntar seus pedaços
Para descobrir que ainda batia e fazê-lo reviver na marra
E, de tanta distração, fui me distraindo
E mesmo com tantos percalços,
Meu horizonte, que era só teu,
Abriu-se em novas dimensões
Movido pela força indizível da dor, do cansaço e da necessidade
E, de tanto passado, fui passando
E deixando-me livre para amar,
Fui reaprendendo a contemplar
A acreditar
A acalmar
A respirar
A suspirar
E por isso te escrevo esta carta
Na quase perdida esperança de que um dia possamos
Matar toda a fome e a sede criadas
Encontrar em si pessoas amadas
Fazer da serenidade as nossas moradas
E, desatrelando-nos da nossa própria escuridão,
Possamos deixar ir o que em nós não cabe
Assim quando for-se a raiva,
Tornando-se apenas
Indiferença e perdão.
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